quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Não começa aqui

  A pressa começa para aparecer, enfim, o ser. O que eu tanto esperei, talvez, foi que chegasse logo. Sem ansiedade. Maldade. Sua e minha, que queríamos o futuro. Está surdo? Que queríamos o mundo. Imundo. Não sairemos de dentro de nós. O nosso planeta é veloz e falo que talvez não caiba tantos sonhos. O nosso mundo é rápido e talvez não tenhamos tempo de correr no espaço em que nos acomodamos. Espalha, a poeira que me prende à sujeira da sua casa. Que me move e me faz espirrar. Espiarei a sua vida, que mesmo longe, até que é parecida com a minha. Que quando perto, acho que é minha. Ninguém me pertence. Quero tudo o que não me quer. E deixo pra lá o que me deseja. O seu desejo morreu em mim, no meio do caminho, quando eu estava quase indo. Até aqui. Chegou? Demore, que por enquanto eu estou vivendo bem. Tudo bem? Com você. Está até fácil se viver. Aqui, tudo que chega, não basta. Não quero de graça. Me abraça. Agora já vou, quero que venha. Esqueça essa dor. Passou.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Escrevendo com a ponta dos pés

  Eu pensei que eu dominava a dança e que meus pés ouviam atentamente aos meu comandos. Eu pensei que eu dominava o balanço do meu corpo, que eu dominava os passos, os braços, o espaço. Eu pensei que eu era dona de mim, do meu querer, das minhas vontades. Eu errei. Eu não domino a dança, a dança é que me domina por inteiro. Meus pés não ouvem a minha voz, porque eles ouvem a minha alma. Minha voz se cala, não sai. Não falo. Não consigo pensar, não consigo raciocinar. Sou toda sentimento, sou toda emoção. Danço por instinto. Não tenho saída. Danço porque preciso de um tempo só meu. Preciso de um tempo pra parar tudo o que está acontecendo dentro de mim. Preciso de um tempo pra parar de respirar e ainda assim me sentir mais viva do que nunca. Preciso de um tempo pra desobedecer a gravidade, pra fugir do barulho do mundo. Preciso de espaço para girar e mudar de lugar sem me perder. Preciso ouvir a música que toca no meu interior. Não mando em mim, não sigo o normal, não fico parada. Não sei fazer por fazer. Não consigo pegar a senha e aguardar. Danço na fila. Não sei esperar terminar de almoçar. Danço enquanto almoço. Danço enquanto durmo, danço enquanto sonho. Danço porque sonho.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Conselho de irmã mais velha

 Se eu pudesse, faria você entender que eu já andei por muitos caminhos, já tropecei em muitas pedras, se eu falo é pra não te ver cair. Se eu pudesse colocar dentro da sua cabeça que você pode evitar ter a mesma dor que a minha, basta trilhar para o lado de lá, basta saber que sapato usar. Se eu pudesse te obrigaria a sair sempre com um casaco, se por acaso fizesse frio. Se você acreditasse na minha imatura experiência, não passaria o dia inteiro em frente à televisão, andaria sempre com um livro na mão. Se eu pudesse, te faria entender que o perigo não é dobrar na esquina errada, o perigo é perder-se de si mesma. O perigo é calar seus sonhos, afundar-se dentro de vontades alheias e esquecer-se de viver. O perigo é não viver. Se eu pudesse, te provaria que não existe bicho papão. Mas existem tantos outros bichos, piores até, que também gostam de pertubar nosso sono. A vida passa mais rápido do que... Passou. A vida passa mais rápido do que o instante que você pára pra pensar em algo tão rápido quanto a vida. Queria conseguir te explicar do quanto você tem sorte em habitar, atualmente, a melhor fase. Ainda pensando que a maior dor é arrancar um dente de leite. Ainda pensando que o maior problema é quando Papai Noel erra seu presente. Ainda achando que o assunto mais difícil da vida é multiplicação. Se eu pudesse te ensinaria todas as coisas que você gostaria de aprender e te falaria de todos os livros que eu queria ler. Se eu pudesse deitava toda noite com você. Largaria todas as apostilas inúteis que eu tenho que ler, pra ver sua apresentação do inglês. Se eu conseguisse, te contaria todas as fórmulas da felicidade, mas desconheço-as. Se eu pudesse descobriria todos os segredos da vida e correria pra te contar, só pra você não se preocupar, só pra você não se chatear. Mas não posso. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Estamos nos afogando

  Eu falei que não me submeteria à esse sistema. Eu falei que não daria o braço a torcer. Eu gritei, rasgando minha garganta frágil e destruindo minhas cordas vocais, uma a uma. Eu escrevi cada resposta dos testes e das provas com meu sangue. Eu desejei não ver mais o amanhecer e dormir para sempre. Eu queria mudar o mundo, mas não tinha tempo. Ainda não tenho. E ainda quero. Mas fui soterrada por palavras de ordem. A ordem era oposta. A ordem batia de frente com o que eu queria. O que eu queria se perdeu, se escondeu. Me esconderam. Taparam minha boca. Eu fraquejei. Eu cai, me perdi. Perdão. Tentei gritar, tentei falar que minha vontade era absurda. Me rendi. Ainda consigo ver o brilho dos meus olhos, um pouco empoeirados, um pouco desiludidos. Imploro à mim mesma que não desista, tento me convencer de que tropeçar faz parte. Mas sinto que talvez eu não tenha mais tantas chances, talvez eu tenha que aceitar. Abrir mão do meu drama. Sinto o cheiro do futuro batendo na minha porta e percebo que o presente não foi suficiente. A vida não é suficiente. Não importa o quanto você aproveite, a sensação é de que ainda precisamos de mais. Precisamos de mais vida, de mais momentos descompromissados, de mais liberdade, precisamos saber ser livre, precisamos abandonar o que nos empodrece, nos suja, nos inflama. Ainda com o coração ferido e apertado, sento na minha escrivaninha e passo um tempo analisando meu ano letivo. O fim está próximo. Mais um começo chegará. Chegará também o momento em que descobriremos quem está pronto para abandonar as fraldas. A mamadeira com leitinho quente não basta mais. Agora receberemos apenas a panela, cada um com seu feijão, ainda cru, esperando a receita certa, esperando um tempero especial. A faca está nas nossas mãos, ou cortamos a cebola ou a enfiamos no nosso próprio peito. Não tem jeito. É agora ou agora. Chegou nossa hora. Estamos nos dirigindo para o último ato desse espetáculo chamado Colégio. Ensino Médio. O nome diz tudo. A média, a mesmice, o ensino errado, o tempo esquecido, o assunto perdido. Estamos quase livres, já posso ver minhas asas crescendo, se debatendo contra as grades da gaiola. Já posso ouvir o som do meu drama se despedindo dessa amargura. Não somos tão inúteis assim, colegas. Esse não é o resultado final. Ninguém tem o direito de nos reprovar, de nos avaliar. Se passarmos pelas provas da vida, já está valendo.

domingo, 11 de novembro de 2012

Negação

Não me toque
que o calor me tomou
Não me siga
que eu não sei aonde vou
Não me queira
que o dinheiro acabou
Não me fale 
do amor que sobrou
Não me diga
que a saudade aumentou
Não me minta
sobre o que você sonhou
Não me queira 
como o seu grande amor

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Perdoa o drama

  10:55 da manhã. A sala de aula estava lotada de pessoas que já não estavam mais aguentando aquela quarta-feira de sempre. Aquela quarta-feira com o cheiro da rotina, com a cara do cansaço. Sentei na cadeira azul, da cor do céu que eu gostaria de estar olhando naquele momento. Tentei encontrar uma posição confortável, mas o ar condicionado estava batendo no meu rosto, aumentando ainda mais o meu desconforto. Não sabia se eu não estava conseguindo respirar direito por conta do ar frio ou por causa da minha fobia à certos conteúdos do currículo escolar. Provavelmente a segunda opção. Desliguei a parte do meu cérebro que ia tentar prestar atenção na aula de biologia e, com a outra parte, que é destinada a atividades pensantes mais enriquecedoras, fiquei tentando entender o que eu estava fazendo no colégio. Sem esse drama e essas desculpas ridículas de que alguns conteúdos que nos ensinam são inúteis, porque qualquer pessoa, com um mínimo de criticidade, percebe isso. Não foi nenhum pensamento rebelde amador de adolescente revoltado com alguma nota baixa. Não foi preguiça, nem ignorância. Foi um apelo da minha alma. Senti que o meu interior estava implorando uma explicação. Eu estava tentando entender, porque não entendo. Admito que eu queria me conformar com a inutilidade do que é visto em sala de aula, dos colégios em geral, mas é mais forte que eu. Um rebuliço enorme brota dentro de mim e eu tento olhar em volta, pra ver se isso só está acontecendo comigo, se só eu estou insatisfeita. Encontro alguns olhares, tão perdidos quanto o meu. Encontro alguns sorrisos, tão descontentes quanto o meu. O meu inconformismo atrapalha meu rendimento escolar, a partir do momento em que eu não aceito que um número indique o meu nível de inteligência ou conhecimento e defina o meu futuro. Sei que outras pessoas até possam concordar comigo, mas pensam que esse é o sistema e acabou. Dane-se o sistema. Dane-se essa maneira impensável de agredir nosso cérebro. Ainda tem aqueles que falam que todos terão que aceitar e passar por isso. Se fosse desse jeito a ditadura não teria acabado, todos iam ter que passar por esse sofrimento. Calado. Não faz sentido, se tem algo incomodando por que não falar? Por que não mudar? Vamos aceitar esse jeito de inflarem nossa mente com conteúdos que a data de validade é até o dia de uma prova ou uma avaliação? Vamos aceitar passar a melhor fase das nossas vidas trancados em um galpão de robôs? Ou será que o problema é só comigo? Deixa pra lá, vou ler um livro.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Pelo seu dente canino

  Mataram o jardim que havia em sua alma, desencantaram o brilho dos seus sonhos. Como um tiro no peito. Um rasgo profundo no dedo. A mão direita amputada. Que tipo de monstro pisa em cima da asa de um passarinho que mal sabe voar? Que tipo de pessoa arranca da outra a coragem de amar? Ninguém tem esse direito. Eu te imploro, volte! Por você, pelo mundo. Por favor! Preciso que sua alma floresça novamente. Não sei como te convencer, só sei que o mundo já é escuro demais e não podemos abrir mão de um brilho como o seu. Eu não consigo aceitar. Eu não posso. Desculpe-me por estar cuspindo minha indignação, mas meu desespero me corrói. O desespero de também ter medo. Medo do meu jardim também secar. Medo da minha coragem se esvair e eu não querer mais amar. Medo do perfume acabar. Não podemos sossegar assim, aceitar mais um corte no nosso coração de vidro. Não queremos mais viver assim, sem nenhum suporte e sem ser ouvido. A festa acabou. O circo fechou. O palhaço se aposentou, ainda no início da carreira. A solidão, às vezes, é a melhor escolha, é a melhor saída. Mas não temos para onde fugir. Quem nasceu pra amar sempre arranja um fio de coragem do fundo da alma. É instinto.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Prólogo

  Sou um livro espesso, com capítulos grandes e palavras difíceis. Tenho períodos longos, repetitivos e sem coesão. Em algumas páginas vem só um borrão. Não quero borracha. Não quero que me apague, quero que se apegue. Quero que se entregue. Traga um novo conto, me leia em qualquer canto, me guarde no seu quarto. Me arranca dessa biblioteca escura, me cura dessa amargura. Quero que me devore, que me decore e me implore uma página a mais. Não quero que me entenda, nem se surpreenda com o que vai encontrar em mim. Posso não ter nada, mas pode me ler, sim. Quero que navegue em mim, viaje em minhas folhas e se prenda sem querer sair. Quero que fique e que não queira o fim.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Um olá

  É claro que eu sumi. Em um mundo como o nosso quem é que tem tempo para escrever? Em um mundo como o nosso quem é que tem tempo? Aliás, vejo frequentemente, pessoas reclamando a falta de tempo. Se ningúem tem o tempo, será que ele existe? Quem é esse senhor tão cobiçado? Quem é esse tal de tempo que acha que manda nas nossas vidas? E, em certos casos, acaba mandando mesmo. Quem sou eu, para pensar que tenho direito ao tempo? Quem somos nós para reclamar, se nem sabemos do que estamos reclamando? Acredito que a ação de discordar nos move. O verbo "reclamar" faz surgir uma chama de inquietação dentro de nós. Por isso escrevo. Porque a inquietação dentro de mim é maior a cada dia. A cada hora, minuto, segundo. Ainda que nada disso exista. Ainda que nem eu exista. Nem você. Ainda que sejamos frutos da imaginação um do outro. Ainda que não sejamos coisa alguma. Mas alguma coisa existe. Nem que seja o nada. O vácuo. O espaço. Alguma coisa tem que existir. Nem que seja o tempo. Nem que seja.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O que era se foi

  O suco, que parecia tão gelado, desceu queimando minha garganta. O sangue armazenado nas minhas narinas nem me deixava mais respirar. Ainda bem. Provavelmente se eu puxasse o ar sentiria o seu cheiro. E naquele momento eu preferia sentir o cheiro das flores do meu velório do que o aroma do seu perfume doce invadindo o íntimo do meu ser. Provavelmente, ao dar mais um gole no suco, eu procuraria os seus olhos rindo de mim. Mas, ao contrário disso, meus olhos encontraram o vácuo que a sua ausência deixou. Obrigada. Que belo presente. Que linda recordação. Com toda certeza contarei aos meus netos da insignificância da sua pessoa para mim. Quando eu estiver velhinha, lembrarei apenas de alguns recortes da nossa convivência. Mas depois farei questão de apagar qualquer vestígio do seu ser. Qualquer vírgula das suas palavras, qualquer ponto da nossa história sem fim e as histórias dos nossos finais. Aliás, acho que nem me lembro mais.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Quem é?

  A campanhia tocou. O silêncio da minha sala de estar ecoou pelo hall do apartamento. Meus passos fizeram um leve barulho na minha caminhada do quarto até a porta. Girei a marçaneta, que estava ainda mais dura por conta da minha falta de força. Abri a porta e o vento frio da manhã passou agressivamente pelos fios do meu cabelo. Não sabia se eu deveria ver quem estava do lado de fora. Sai de trás da porta, ainda com roupa de dormir e cara de sono, tentando imaginar quem, em plena consciência, me acordaria em um horário tão impróprio. Percebi que ninguém estava ali. Ninguém. A não ser eu e minha solidão, que pensou em ir embora, mas desistiu. Além de mim, mais ninguém estava naquele momento. Eu era a única personagem da cena, fazendo um monólogo jamais ensaiado. Eu era a personagem secundária da minha vida, que não era minha. Me perdi em mim. Me perdi no texto também. Nesse texto, para ser mais específica. Perdi o início todo. Perdí o todo. E provavelmente você acabou de se perder também. Em vários sentidos. Desculpe-me, não era minha intenção. Até porque minha intenção se perdeu também e agora estamos todos perdidos. Comecei escrevendo sem saber de fato o que eu estava querendo dizer e aonde eu estava querendo chegar. Mas, eu estava sentada na minha cama e acabei de deitar, notando que esse texto surgiu do cansaço. Esse texto surgiu da exaustão da minha mente. É tudo o que eu tenho. E sempre dou tudo de mim. Em tudo. Agora acabei de reparar que escrevi a palavra "tudo" muitas vezes. Três vezes, no caso, mas em menos de três linhas, o que significa uma repetição. Um cansaço. Li agora o que eu escrevi. O início não tem nada a ver com o desenrolar do texto, o título fugiu da proposta e a conclusão entrou na rua contrária da minha ideia inicial. Preciso parar de escrever. Meus olhos ardem como uma brasa quente em plena fogueira de São João. Minhas mãos estão latejando, implorando um descanso. Minha mente grita, querendo soltar mais palavras, mas o tempo me cobre, como o cobertor que eu estou desejando para ir dormir. Está frio aqui. Boa noite.

domingo, 9 de setembro de 2012

Um beijo na testa de Deus

De todos os poemas
Esse é o mais sincero
Esse é o mais profundo
O mais duro
O mais estrondoso

De todas as palavras
Essas são as mais verdadeiras
Essas são as mais diretas
As mais óbvias
As mais respeitadas

De todas as minhas escolhas
Essa é a mais concreta
Essa é a mais subjetiva
A mais firme
A mais serena

De todos os meus pedidos
Esse é o mais necessário
Esse é o que eu mais quero
O que eu mais batalho
O que eu mais dependo

De todo o meu coração
Esse é o meu maior pedido de perdão
Esse é o meu amor mais sério
É o meu sentimento mais sincero.

De toda a minha vida, 
a minha vida é o que eu menos quero.

Uma carta ao vento

  Sem noção do que aconteceria ou poderia surgir no meio da história. Uma página foi arrancada. Roubaram um livro da minha biblioteca. Roubaram um pedaço da minha mão. A mão direita. A mão que eu escrevo, que eu me despeço. A mão que eu bato. A batida que dói e fere profundamente. Quem apanha? Nunca ganho. Nunca venci uma batalha assim. Tão medíocre, tão nojenta. Uma guerra fria. Uma frieza que eu escondia. Um sorriso que eu admirava mas fugiu, saiu, partiu. A vida riu. Eu não ri. Seria cômico, se não fosse trágico. Se não fosse triste. Se a estrada não fosse tão sombria, eu seguiria. Eu arriscaria. O perigo é doloroso nesse caso. O amor é uma alternativa falha. O amor é uma rua sem saída. Mas eu nunca quis sair mesmo.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Só sei um pouco

  Mas talvez a vida siga. Sem pressa, nesse barco que faz tudo, menos navegar. Nesse carro que faz tudo, menos andar. Nesse avião que faz tudo, menos voar. Nesse tempo que faz tudo, menos parar. Em uma vida tão corrida de quem nem lembra de amar. Quem sabe. Ninguém. Em um texto confuso, misturo tudo o que eu queria ser. Em um texto sem rumo, despejo tudo o que eu queria ter. E a alma, com pressa, caminha nas ruas dessa cidade esquecida. Tão esquecida quanto eu, que só lembro de mim. Escondida com um véu, que não tira nem para ir no jardim. No jardim que enterra sua alma morta, calada. Agora calma, por poder descansar.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Por falar em amor...

  O vento passou na hora exata. O vento, finalmente, soprou para o lado certo. E nada mais incerto que o meu desejo. E sem pena me despeço das minhas doutrinas falhas. Com o sorriso estampado na cara, imaginando mil histórias, escrevendo na mente, cada segundo que ia passando lentamente. O vento soprou mais forte, fazendo subir o cheiro da rebeldia, o cheiro dos mesmos desejos, que se encontravam no ar e se cruzavam. O cheiro da lembrança que eu me recuso a esquecer. O meu coração não vai ceder. Não dessa vez. Quem sabe daqui a uns cinco minutos, quem sabe só até você piscar o olho outra vez. Quem sabe? Você sabia. E em menos de um segundo virou meu mundo. De cabeça pra baixo. Como se desse um laço num toureiro perdido, em cima de um boi bandido. E eu ri de mim. Tão convicta da minha auto-defesa, percebi que tentar me defender era inútil. Meio sem jeito, avisei ao medo pra voltar mais tarde. Não era hora. Nunca é hora. O medo é um segredo. E amar é um descarrego. Amar é pura coragem, é um ato nobre de quem se descobre. Mas nunca descobre o mistério que é se descobrir em alguém, que não é ninguém até se descobrir também, no outro, e finalmente amar. Amar é a entrega. De uma carta, de um bilhete, de um presente, de uma vida. O amor é uma ferida. Prazerosa. É o fogo queimando o estômago, é o roer da unha. O amor é o choro ardente por quem está ausente, é o beijo pra passar a dor de dente. É tudo que já foi vivido e não será esquecido. Amar é não esquecer. O amor é tudo aquilo que não sabemos dizer.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Se a minha vida fosse minha

  Se minha vida fosse minha, eu me livraria da ordem, me livraria dos calos, dos pedaços arrancados. Me livraria dos amores errados, dos cadarços desamarrados, dos corações congelados. Se minha vida fosse minha, eu bagunçaria os planetas na órbita, mandava todo mundo para o espaço e correria logo pros seus braços. Se a minha vida fosse minha, eu evaporava desse lugar, ia pro mar, navegar, sentindo o vento me beijar. Se a minha vida fosse minha, eu não acordaria cedo, eu não teria medo do tempo passar. Eu nem imaginaria os ponteiros do relógio, pra não ter um troço e meu coração parar. Eu andaria no meu tempo, correria menos e aproveitaria mais um pouco do luar. Quem sabe até iria na lua e ficaria vendo você, aqui embaixo, dançar. Até ia te visitar, te chamar pra passear ou esperar você me achar. Se a minha vida fosse minha, eu não estava mais aqui, tinha fugido pro Cristo Redentor, pra encontrar com meu amor. Se a minha vida fosse minha, eu não viveria assim.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Labirinto de seres perdidos

  Devo admitir que sua confusão é quase uma ilusão aos meus olhos cor de carvão. Devo admitir que a sua estranheza me faz estranhar meu próprio ser e sua delicadeza me faz sentir meu corpo um pouco mais quieto. A cor da sua alma, me acalma, me aquieta, me respira. Transpiro, nessa correria de pernas que se perdem fácil, nem se quer me enlaço em um futuro incerto ou talvez não seja tão incerto assim, mas quem sabe você encontra algo certo em mim. Ou quem sabe você me encontra. Meio sem saída, quase perdida, volto pro lugar que eu nunca estive. E quem disse? Talvez ninguém saiba, ninguém veja. Deve ser você, que também não sabe dizer. Pode ser que sim, pode ser que não. Pode ser os dois. Pode ser nós dois. Pode ser nós dois? Escrevo rapidamente, sem ter remetente e um endereço ausente. É urgente! Será que devo rasgar as minhas cartas e cair fora do jogo? Ou será que o jogo ainda nem começou? Me avise quando for jogar os dados.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Quase a última

Era uma vez
uma menina
que andava 
na ponta
do pé
E se apaixonou
por um mané
Que achava 
lindo
o ballet
dentro dela.
Que se encantou
pelo seu coração
dançante
e seus olhos 
brilhantes.
Mas a magia
acabou
e a saudade ficou
gigante.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Tá na hora?

  Já posso ir embora? Agora que já provou um pouco do meu cheiro doce não tenho mais o que fazer aqui, não é? Agora que já sabe aonde estou, já pode sumir. Quero ver quanto tempo você aguenta. Quero ver se o seu relógio também anda em câmera lenta. Bote um pouco de pimenta. Ignore meu ódio. Ignore minhas palavras ardidas que saem rasgando o seu peito, tentando desvendar que porcaria de sentimento você tanto esconde. Que droga você guarda em seus olhos pra prender toda a minha atenção quando você me encontra? Que vício é esse de encontros e desencontros que você tem? Que palavras são essas que você tem escrito no livro da sua vida? Com tantas feridas, deveria arrancar algumas páginas. Deveria ser mais sincero com seus sentimentos. Aliás, é perda de tempo. E que tempo... Parece que só chove entre eu e você.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Nade aqui no meu jardim

Nado
nesse mar
de profundo 
silêncio.
De olhos 
que falam
E sorrisos 
que invadem
os pensamentos.
Coloco um pé
no meio 
da casa
de uma borboleta
sem asa
que não sabe amar.
Como um 
estranho
que entra
sem bater na porta
e encontra a esperança
quase morta.
Vem me renovar!
Sou uma linda flor
em pleno desabrochar.

Tem que ter título?

  Tenho que admitir que depois que comecei a assumir que escrevo, minhas notas de redação caíram. Depois que comecei a escrever livremente não tenho mais paciência para escrever enjaulada. Quando vejo um papel cheio de linhas, me obrigando a escrever reto, sem fugir do tema, sem sair da margem, começo a suar frio. Minha mão treme querendo rabiscar tudo, querendo escrever o que eu quero e não o que querem. Licença, eu quero falar o que eu sinto. Odeio esse modo absurdo de cobrar inteligência, odeio essa inteligência única vista de um ângulo só. Desculpem tornar esse texto muito pessoal, mas o texto é meu. Não no sentido de orgulho ou propriedade, mas no sentido de liberdade. Odeio minha falta de maturidade para aceitar estar no colégio. Não consigo aceitar o fato de estudar, saber todo o assunto, mas zerar um teste porque meu cérebro ainda não está acordado às 7 horas da manhã de sábado. Meu olho não enxergou a questão direito. Eu não sei o que eu estava pensando na hora. Só lamento. Queria exterminar essas avaliações que só servem para desmotivar os pobres habitantes desse planeta. Queria convencer vocês de que esse método é estúpido, mas meus argumentos são muito fracos. Aliás, reconheço a ignorância escondida atrás de um discurso quase todo movido pelo emocional. Inclusive odeio discursos. E odeio ser movida pelo meu emocional. Embora eu seja movida pelo emocional. Sou covarde demais pra assumir que não é isso que eu quero. Sou covarde demais pra escolher um caminho dificilmente trilhado. E desabitado. Tenho que deixar exposta a minha total admiração pelos corajosos que fogem das garras de uma obrigação não pensada. Odeio não pensar. E odeio obrigações, embora eu não fuja delas. Acabei de lembrar de um pensamento que surgiu na minha mente hoje de madrugada: eu tenho vício de felicidade. Por isso toda a minha raiva de colégio, por isso o meu pavor à essa caixa de concreto, com uma cambada de gente que, querendo ou não, é obrigada a pensar igual. Eu não quero pensar igual. Fim. Estou colocando um ponto final no meio do texto. Estou terminando o texto em pleno desenvolvimento. Porque não cheguei a conclusão nenhuma. Porque conclusão me lembra prova de redação e prova me lembra erro. E conclusão também me lembra solução. E na verdade eu não vejo solução. Perdão.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Adeus no modo imperativo

  - Então deixe suas malas aí em cima mesmo. Não me arranje mais problemas. Deixa tudo como está, melhor você nem voltar. Desde a sua partida não ligo mais pra vida. Quem quer saber? Pergunto. Sem esperar resposta. O que te importa? Você saiu, nem me deixou um bilhete. Você saiu, nem me ligou. Não atendo mais, não me conte. Não me encontre. Saia logo do meu mundo, aqui não tem mais espaço pra você. Saia logo dessa casa, quero novos habitantes, não mais meros visitantes. O meu coração não suporta visitas. Não suporta despedidas. Vai logo de uma vez. Pegue o próximo trem da estação e deixe em paz meu coração. Larga a minha mão. Agora quero andar sozinha.

A escolha de Olívia

Olívia Palito
De tão leve
voou
com o vento
e o pensamento.
Bateu de frente,
trazendo à mente
a lembrança
ardente.
"- Tu me queres quente?"
Olívia perguntou.
Mas deu dor de dente
e ela chorou.
Nem se quer beijou
e ele já ligou.
Mas Olívia preferiu 
a solidão.

Alô

  Hoje estou com pressa de novo. Estou correndo, outra vez. Outro dia. Novo, talvez. O mundo gira e nada volta para o lugar. Não quero escrever hoje. Estou muda. Não quero ouvir ninguém também. Não quero regras, não quero gente. Não quero quase nada. O nada é muito. Quem fala? Agora. Depois não vai ser mais. O mesmo. Percebo que o mundo todo parece correr também. Quer falar com quem? Ninguém. Me escuta. Quero ver se alguém se embriaga de coragem e faz uma lavagem nessa gente. Inteligente. Corre. Apressa o passo, que a gente está sem tempo. Corre. Está chegando a hora da hora acabar. Se joga no esgoto, já chegou agosto e o tempo se esgotou. E nesse movimento, acabamos fazendo tanto e não fazendo nada. Boa tarde. Me invade. A loucura toda, que se embaralha por entre todos nós. Somos até fortes, para aguentar a morte. Boa sorte.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Sem graça

Calma
Vamos manter a calma
Que graça tem?
Ninguém sabe, meu bem
Dando risada
da vida
nojenta
Se ausenta
Pra não ver nada
Não é?
Que estranho
Você
Que diz
que me quer
quando não quer nada
E do nada
Ela surgiu 
assustada
Você não é encantada, viu?
Você não é nada
Agora vamos parar.
Fica quieto ai, todo mundo!
Que o mundo 
resolveu 
gritar.

Literalmente de volta

  Perdoem o meu sumiço. Estava viajando por dentro de mim. Viagem louca que me fez perder o tempo de voltar. Queria morar lá. No interior da minha alma, que às vezes se cala pra disfarçar a gritaria. A jaula, que prende alguns, me fez sair pra dançar. Eu, que não sei dançar, mas consigo até ficar na ponta do pé. Enrolo um pouco, de um lado para o outro, seguindo a canção. Descomplicando a vida, que é ridícula e me faz pensar se realmente é o que eu escolheria. O único momento em que me sinto viva é quando eu danço. Todo o meu corpo entra em sintonia para agradecer o prazer de viver. Sinto a ponta dos meus pés sorrindo e minhas mãos acompanhando a alegria. O que seria de mim sem a arte de dançar e transformar minha vida ao subir no palco? O que seria de nós, pobres humanos de cabeça oca, sem os nossos sonhos? O que seria de mim sem o sonho de voar? E eu saiu voando, com o corpo balançando, sem querer mais parar. E eu descubro que eu poderia ficar ali a minha vida toda. Eu descubro que felicidade não tem preço e que eu não trocaria nada desse mundo pobremente capitalista pelo arrepio doce, pelo sorriso incontrolável, pelas batidas mais fortes do meu coração, que a dança me proporciona. Eu não trocaria nada por alguns minutinhos em movimento, em cima do palco, com as luzes brilhando, acompanhando minha alma dançar.

domingo, 22 de julho de 2012

Qualquer coisa

  Não quero entender. Só quero viver. Sério. Não faço questão de nada. Só da felicidade. Só de um arco-íris no meio da cidade. Só um beijo, sem vaidade. Só dez anos de idade. Não quero saber tudo. Só o necessário. Só o importante, o interessante. Agora que voltei, quero que fique. Só uns minutinhos. Só o suficiente. Só o tempo de matar a saudade. Ainda que ela não morra. Ainda que o tempo corra. Contra nós. Ainda que não dê tempo. Mesmo com tanto vento. Quero que fique. Quero um pouco do som do seu silêncio, que é como um acalento para meu coração confuso. Quero que sente e chore, por esse amor que não morre e que da gente corre. Quero que ande devagar, pra eu te acompanhar. Nessa estrada, sozinho você não pode andar. A viagem foi longa, mas aqui estamos, com tantos planos. Vamos nos juntar? Que essa vida é quase um engano pra quem só sabe sonhar. Por onde andei, enquanto você estava parado, com os olhos fechados, sem niguém pra te guiar? Por onde andei, enquanto comigo você não podia estar? Perdi o mapa, mas sei perfeitamente aonde eu quero chegar. E enquanto eu não chego, fecho os olhos e vou sonhar.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Pequena oração

  Quero agradecer, meu Deus. Obrigada. Por tudo, de verdade. Porque, do nada, comecei a sentir uma alegria inexplicável. E o que deixava meu coração tão aflito, já não pertuba mais o meu sono. Sei que dizem para não ficarmos espalhando nossa felicidade por aí, mas quem se importa? Nada mais me preocupa, porque quase tudo passa e, às vezes, ficamos tão focados nos nossos problemas que não damos atenção para as poesias da vida. Estou feliz de verdade. Sabe-se lá o porquê. Estou rindo à toa, rindo fácil. Rindo de tudo, ainda que nada entenda. Rindo do nada, rindo de nada. Rindo da vida, que tentou me dar uma rasteira e não conseguiu, porque eu sei voar. Rindo das minhas asas, batendo apressadas, tentando fugir. Rindo da fuga, que já não me pertuba e trás um alívio que achei que eu não fosse conseguir. Nada me preocupa mais. Não vale a pena, acreditem em mim. Uma das coisas que mais me deixava irritada eram os deveres de física. Estou com várias páginas de questões para resolver, não sei absolutamente nada do assunto, mas estou tranquila. Se o estresse me fizesse tirar uma nota boa eu ainda tentava. Mas não. Motivo pra ficar triste todo mundo tem, mas também temos motivos para ficarmos felizes. Aliás, acabei de notar que eu estou feliz sem motivo algum. Que sensação maravilhosa, que leveza! Por favor, meu Deus, me deixa feliz para sempre! Renova a minha alegria a cada nascer do sol. Faz viver dentro de mim essa magia de encarar a vida com fantasia. Me deixa com esse sorriso bobo, que foi tão difícil de conseguir. Não larga a minha mão, Deus. Te confiei meu coração, pra ninguém mais me machucar. Sinto como se estivesse pisando em um tapete enorme de nuvens, dançando com os passarinhos, bailando pelo céu, ao som do vento. O sol vem trazendo luz e aquecendo meu coração, quase gelado. E eu pedindo perdão por não dar valor pra essa linda imensidão. Me deixa sempre assim. Aquecida. Viva. Com a esperança de só esperar o melhor. Sem pressa. A eternidade é logo alí. Adeus, estou aqui só de passagem.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A lenda dos palhaços

Era uma vez
uma cidade.
Ninguém sorria,
niguém chorava.
Cidade lotada 
de homens fantasmas
de alma vazia.
Certo dia
No dia errado
nasceu uma menina.
Ela cresceu 
e se apaixonou
por um lindo rapaz
que não era lindo
porque só era lindo.
Esse rapaz descobriu
sobre os sentimentos
da linda menina,
que era mais que linda.
Porém
ninguém daquela cidade
era acostumado a ter
sentimentos
quando viram a menina
chorando pela dor
de amar,
riram.
Pela primeira vez 
na história daquela 
cidade
as pessoas tiveram alguma
emoção.
A partir daí
todos
começaram a fazer 
a menina chorar
para ter um pouco 
de graça na vida.
A doce menina,
de tanto chorar,
ficou com o narizinho
todo vermelho.
Daí surgiram os palhaços:
Pessoas tristes,
com o nariz vermelho,
e que fazem os outros rirem.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Também sei voar

 Por que logo um passarinho fez meu coração bater mais forte? Eu podia me apaixonar por qualquer ser que habitasse essa terra. Por que não um cachorro, que quer carinho o tempo inteiro e não se vê longe da sua dona? Por que logo um passarinho, que precisa viver livre? Que precisa do horizonte, do céu aberto. Por que você quer o mundo inteiro? O meu mundo não te basta? Morar na minha casa já não seria suficiente? Prometo não te prender em nenhuma gaiola, embora meu coração já pense em te deixar preso lá pra sempre. Mas não farei isso. Tenho total consciência do problema que eu poderia arranjar. Arranjo um canto só seu. Se você for só meu. Lindo passarinho, o seu doce canto me encantou e daria a vida em troca da sua cantoria. Se você tivesse me avisado que gosta tanto de viajar e ser livre, eu teria te falado que sou uma borboleta e conseguiria te acompanhar sem problema algum. É que sua companhia é suave. Sou capaz de pegar o céu inteiro pra te dar. Voe comigo um pouco. Segure na minha mão, se você cair, eu vou te segurar. Liberte-se ao meu lado, que eu quero ver suas asas batendo mais forte. Eu também sei voar. Me avise quando voltar.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Cadê você?

Silêncio
Não grite
Ninguém escuta
O barulho
Da sua alma
Gritante
Ofegante
Vai voltar?
Respire
Sinta o cheiro que ficou
Do que se foi
Se
Não deu
Não foi
Era bom
Que fosse
Algo assim
Querendo ou não
Não querendo querer
Embora
Queira tanto
O tanto 
Sobraram tantas palavras
Guardadas
Escritas
Não lidas
Ninguém leu
Silêncio
Tem gente aqui
Vamos embora
Que o barulho está me deixando louca
Me deixou
Você
Cadê?

Um livro rabiscado

  É bom deixar logo avisado que meu lugar é aqui. Sem muita demora. Não sei. Pergunto. Esqueço. Outra vez. Volte. Voltou. Na hora errada. Errado. Você, que dizia não querer saber se era o certo. Está certo. Está bem. Não devo nada à ninguém. Fica na sua. Eu fico na minha. Vamos ficar juntos? Vamos embora, que deu nossa hora e na sua casa eu não posso morar. Mora aqui comigo, que o tempo precisa passar. Calada fico, nesse mal estar de quem não quer nada, por saber que não vai ter. Me engano, como uma mãe que diz ao filho que ele veio da cegonha. Vergonha. Minto pra mim e acredito em cada palavra escolhida cuidadosamente pela minha mente. Acredita? Acordo perdida, com uma ferida de quem não sabe se viveu ou sonhou. Um conto de fadas. É pedir demais querer viver feliz para sempre? Tem que ler o livro todo! Eu li e me apaixonei pela história. Te empresto o livro com as minhas anotações que é pra ver se você entende o que eu quis dizer quando não disse nada. Que é pra ver se você sabe me ler quando eu estou calada. Me leia. Se tiver coragem. Perceba como cada linha foi escrita com todo o cuidado. Perceba o som de cada palavra utilizada. Veja que cada texto tem o cheiro de saudade. Volta pra essa cidade, que ficou vazia desde a sua partida. Me espera, eu vou com você. Me leva, eu quero te ler.

domingo, 1 de julho de 2012

Último texto com 16 anos

  Estou correndo contra o tempo, porque daqui a pouco é meu aniversário, já passou das 23h do dia 1° de Julho e eu quero fazer meu último texto com 16 anos. Dia 2. Eu, sempre par. Procurando um complemento pra tudo. Ou querendo tudo em dobro. Eu sempre quero a mais.  Acabei de me tocar que eu realmente me encaixo perfeitamente nessa data. Dois. Eu, que sempre procurei alguém, mas nunca me encontrei. Eu, que sempre reclamo que o mundo anda muito incompleto, no fundo, no fundo, não tenho ideia do que seria meu real complemento. Passo a vida buscando o que acrescentar em mim. Talvez nunca ache, porque a graça é estar perdido e encontrar-se tornaria a vida sem objetivo algum. Embora eu seja uma louca apaixonada por encontros, desses que não programamos, nem imaginamos, mas amamos. Dois de Julho. Uma das datas que mais mechem com o meu emocional frágil. Independência da Bahia. Liberdade. Eu, que nasci com a certeza de que sou uma borboleta. Que bato asas pelo mundo e vou com o coração apertado, olhando para trás, com o vento batendo contra as minhas asinhas pequenas. Voando, com a certeza de que estou cada vez mais próxima de chegar ao meu castelo encantado. Mas o tempo está me enganando. Dezessete anos é uma idade muito pesada. Agora minhas lágrimas escorrem, ao notar que o tempo passa rápido demais, mesmo contra nossa vontade. Me lembro quando eu fiz 15 anos e desejei que aquele momento nunca acabasse. Mas acabou, assim como outros milhares de momentos que eu implorei ao mundo que parasse, que eu implorei por piedade. Desacelerem, por favor. Porque eu vou em uma velocidade um pouco menor, que é pra dar tempo de sentir o cheiro de todas as flores que eu encontro pelo caminho. Olhem todas essas flores! Duvido que alguém já tenha ouvido as histórias que elas têm pra contar. Assim como eu, ninguém nunca ouviu todas as minhas histórias. Nem queiram. Hoje, quase com dezessete anos, 189 anos depois da Independência, sinto que agora chegou a minha vez. Independência ou independência. Não tenho escolha. Assim como abandonei o útero de minha mãe, abandono esse casulo, na esperança de voar ainda mais alto. Quero voar o dobro, afinal, tenho duas asas.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Registro de uma mágoa

  Eu não entendi nada. Sempre estive tão acostumada em ser enganada e me enganar também, para poupar-me de alguns acontecimentos desprezíveis. Eu já sabia que ia dar nisso, claro. Estou escrevendo apenas para deixar registrado que eu tenho noção dos fatos. Impressionante a minha capacidade ilimitada de descobrir o que não quero, de desvendar segredos que eu fazia questão de não saber. Eu vejo tudo, de olhos fechados. E por achar que minha vista alcança todos os cantos do mundo, eu pensei que não teria nada que eu não soubesse. Me enganei, pra variar. É notável o meu desapontamento. Esse texto é apenas para desabafar a minha raiva sem medida. Esse texto é um tapa na minha cara. Escrevo, enquanto sinto cada pedaço do meu corpo rindo de mim. Lamentando o meu romantismo exageradamente burro. Acabo de sentir todas as minhas veias explodindo e jorrando sangue de desgosto sobre a minha face esquecível. Aproveite o momento e ria de mim você também. Mostre os seus dentes afiados, solte uma daquelas gargalhadas apaixonantes. Vamos. Quero ver você rir na minha frente. Vamos acabar de uma vez por todas esse prazer em apenas degustar. O medo de comprar o saco inteiro de feijão, o medo de enjoar do mesmo tempero. O medo. Sair correndo para não esquentar o lugar, para não criar raízes. Não se apegar pra poder voar. Mas um dia cansa de ser livre e não tem para onde voltar.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Não sou daqui, ainda bem.

   Acordei agora. Nem abri as cortinas ainda. Nem vi se o sol apareceu hoje. Chuva. Acabei de ver. Mas como está chovendo se ontem fazia um sol lindo? Como o sol foi embora sem nem se despedir? Mas não me atrevo a falar de despedidas. Foi bom ele ter ido sem falar nada, porque não fica a ansiedade do retorno. Porque nem tudo que vai volta. Ou volta, mas não do mesmo jeito, nem pro mesmo lugar. Eu fui. Voltei. Mas já quero ir de novo. É como uma fuga viciante. É liberdade. Indescritível. O caminho é percorrido com os pés de quem sabe que ali é um dos melhores lugares para esquecer o mundo. Nada existe, ninguém existe. Nem eu. Esqueci de falar que eu não existo mais. Morri, sabia? Estou indo para outro planeta, porque ficar aqui dói. Todo mundo sente dor um dia. Eu sinto vários dias. E quase me engasgo com o que sinto, porque não posso dizer. Vivemos aonde? Aqui todo mundo é triste sempre, por não poder falar que está triste um dia. Ter que sorrir sempre é como pegar uma faca e enfiar na própria barriga. Você deixa a faca lá, fingindo que não está doendo e quando fica sozinha arranca o objeto com tudo e sente aquele ardor, misturado com alívio. Então você sorri, porque finalmente pode admitir que estava doendo. Por favor, vamos admitir que ser humano dói. Ou será que eu não sou dessa espécie e não consigo me acostumar com tantos sentimentos? Será que todo mundo é normal e a estranha aqui sou eu? Será que todo mundo sente o básico e eu que vou além, com um coração mole, procurando amor? Estou no lugar errado, tenho certeza. Finalmente descobri que não sou desse planeta. Me perdoem, mas não sei matar. 

domingo, 24 de junho de 2012

Uma bagunça

  Pode ir na frente, que eu também já vou. Na verdade, mente. Não sei aonde estou. Queria dizer que eu não vou mais. Embora ainda olhe para trás. Queria te contar que o sonho está por um triz e que tudo pode se desmanchar em alguns segundos. As cores aqui já se foram e esse frio fez meu coração hibernar. Não vou falar da saudade e ainda que Chico fale que a saudade é o pior tormento, é pior do que o esquecimento, é pior do que se entrevar, ainda acredito que é muito pior que tudo isso junto. E qualquer palavra utilizada aqui para tentar expressar essa dor seria em vão. Inútil. Dor desnecessária, eu diria. As palavras fugiram de mim, mas não posso fugir do que minha mente me obriga a escrever. Solidão, como um vagão de trem esquecido em uma velha estação. Um rádio que não funciona mais, um jornal impresso que ninguém mais lê, uma vitrola velha que não toca. Guardei o mapa, talvez eu passe ai mais tarde, só pra ter certeza que você já foi. A sua ida foi a pior saída, deixando sem vida as flores do jardim. "Não quero mais ficar aqui!"- eu gritei. Mas ninguém ouviu. Eu estava só.

domingo, 17 de junho de 2012

Uma viagem rápida

   Lamento. Foi a única palavra que apareceu na minha mente agora. Respirei. Respirei mais uma vez. Há tempos tinha parado de notar em como respirar é lindo. Meus olhos estavam olhando ao redor, procurando-me. Desejo-me de volta. Minha alma implorou o meu retorno. E eu voltei, correndo, perdida. Esquecida. Esqueceram de mim no meio do caminho, na beira da estrada. Morrendo de sede. Não me falaram que a viagem era curta. Pensei que íamos de foguete, já estava sonhando até com a lua. Mas me enganei e o engano é cruel, na maioria dos casos. Foi por acaso que subi nesse trem, não sabia nem pra onde ia. E o maquinista não me avisou que alguns lugares estavam sem trilho. Tive que descer, ainda com o trem em movimento. Sem querer admitir que a viagem estava sendo ótima e que por mim eu continuaria lá. Não pude falar nada, claro. Seria fraqueza demais admitir isso assim, na cara do motorista, com todos os outros passageiros me olhando. Minha cara devia estar ótima, devia ser uma daquelas que eu faço ao me despedir de algo que me apeguei e não consigo largar. Mas também não sei dizer que quero ficar. Tive que sair andando, acenando com uma das mãos o adeus que eu não queria dar. Ainda me restava o livro. Uma luz no fim do túnel. Não andei mais naquela rua, era perigoso demais. Em todos os sentidos. Mas o perigo era imenso, em qualquer parte do mundo. Agora eu estava sozinha e as luzes da cidade não conseguiam clarear tamanha escuridão. Os meus pés já nem sabiam para onde queriam ir. Eu sabia. Exatamente, com todas as letras e os mínimos detalhes. Sabia de cor e salteado. Sabia de todas as formas, de todas a maneiras. Tinha o mapa gravado na minha cabeça. Mas agora eu estava longe e já era tarde demais. Lamento.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Querem tudo, mas não querem nada

  É uma pena. Ter pena de quem não merece. Merecer o que não tem e não ter nada além do que não é seu. Ser seu e não se pertencer, não se governar. A culpa é do medo. Simples. Parece fácil, parece. E é fácil. Jogar a própria culpa em cima do primeiro que aparecer. Buscar alguém pra levar o peso por você. Sair de baixo quando não aguentar, ser fraco porque sabe que alguém vai segurar. Olhar com cara de vencedor, mas só perdeu na vida. E acha que está ganhando. O tempo vai passar e mostrar que não é por esse caminho que se chega lá no topo. Não é por aí que vence. A vida é muito mais inteligente do que a gente imagina. Ainda bem. Sábios são aqueles que prezam seus princípios e sabem aonde querem chegar, são aqueles que querem chegar e fazem isso acontecer. Acontece. E o lixo do mundo são aqueles que ficam empoeirados internamente, porque gastam o tempo inteiro cuidando do que está por fora. Embonecando-se diante do espelho como se suas carinhas bonitas fossem eternas. E, ao passar os dias, recebem um tapa da vida e ficam desesperados ao ver seus rostinhos de porcelana quebrando. São tão frágeis, tão fracos, que no primeiro tapinha, quebram-se. São ocos. E de gente vazia o mundo está cheio. Não tenho estômago para aguentar reizinhos achando que são donos do planeta, mas não sabem nem o preço do creme anti-acne que passam na cara.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Heróis melados de sangue inocente

  Que direito tem? Até aonde pode ir uma nação sobre a outra? Não deixar o outro ser. Não deixar existir. Existindo o fim, sem ter começo algum. Sem finalidade. A morte na flor da idade. A flor que murchou, sendo ainda uma semente, sem poder germinar. Germinando errado, um defeito dado, premeditado. Ninguém sabia. Eles sabiam. Destruíram a força com força. Ganharam o mundo friamente, injustamente. Amados, idolatrados, fanáticos. Heróis disfarçados. Foi jogo sujo. Foi sujeira pura. Grande porcaria vencer, grande porcaria melar o mundo com sangue inocente. Malditos. Um contra milhares. Um poder. O poder na mão de poucos e outros sem mão. Um sem coração, milhares sem vida. A vida se extinguindo. Uma história queimada e jamais esquecida. A tentativa de destruir o inimigo, o medo de perder. A destruição em massa de sonhos. O crescimento forçado da fé inesperada. A esperança abalada de quem não tinha mais nada. De quem não via mais, não sentia, não andava. Deixaram de existir em segundos, viraram poeira, pó, fumaça, sombra. Nada. Nada mais existia, a não ser a felicidade podre dos adversários e a revolta dos que não tinham noção do que estava acontecendo. Uma explosão, não se sabe de onde, não se sabe porque. A mãe morreu sem poder esperar o filho nascer. A criança cresceu, sem poder crescer, com os ossinhos destruídos, os olhinhos caídos. Viraram cobaias. Eram examinados, testados, estudados. Viraram uma novidade para entreter uma população que só olhava para o próprio umbigo. Uma população armada, que não pensava, só calculava. Foram obrigados a ter uma vida, sem escolha. Um único desejo: viver. "Paz, por favor!" Eram os gritos dos que foram silenciados com o estrondo. Até hoje não conseguem entender porque foram escolhidos para ter morte eterna.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Dançando, não mais só

  Não falei nada. Era engraçado o momento, porque eu sentia que o meu corpo queria ficar ali pra sempre. E é uma pena ter que obedecer as leis do mundo, enquanto as suas leis internas são divergentes, enquanto o seu mundo tem um movimento de translação oposto. O eixo é outro. O planeta agora gira pra outro lado, em um embalo silencioso, que só se escuta calado. Fala-se pouco, sente-se quase tudo. Muito, eu diria. Ou talvez eu não saiba dizer. Não digo. Apenas escuto o silêncio da nossa respiração, que é tão agradável quanto um esparadrapo enrolado em uma sapatilha velha de ballet. O alívio ao sentir que a ponta do pé não queima mais por estar em contato direto com o chão. A sensação de não estar dançando sozinha no palco. A surpresa ao notar que os passos não foram ensaiados, mas por algum motivo são executados em uma sintonia impecável. A melodia da canção, que acelera o coração de quem dança. A dança que faz as almas bailarem, despreocupadas. A desocupação da mente, ao notar que aquele momento é precioso demais pra pensar em outra coisa. O pensamento que se desliga automaticamente no momento do encontro. O encontro, de quem não estava procurando nada, mas achou.

domingo, 3 de junho de 2012

Já?

  Já vai? O tempo aqui passou voando. Meu relógio foi incapaz de me avisar que já passava de meia noite e o encanto estava acabando. Pobre Cinderela, dormiu no ponto. Normal, desacostumada com príncipes ligeiros. Desacostumada com a correria da vida. Correu e se perdeu nessa aventura obrigatória, que ela achou ser mais uma de suas histórias. Mais uma incompleta para seu livro, que já cansou desses contos pela metade. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Mente só

  Cheiro meu. Agora desapareceu. Fugiu, correu. Sem querer, cai. Tropecei, com a cara no chão. Não, não diga: "sabia que ia dar nisso." Uma bagunça infeliz. Ri de mim. Escondido. Amei. Escondido também. Não ligo, nem te digo. Foi um imprevisto. Previsível, clichê. Estava parada. Comecei a andar. Devagar. Andei, andei. Droga, cai. Levantei rindo, disfarçando. Tinha gente olhando, todo mundo vendo. Sorri. Estava mentindo. Não queria dizer que és lindo. Ri novamente. Só mostrando os dentes. Nem te falei que eu não queria ir, com medo de você não chegar.  Nem te expliquei que eu talvez não fosse, porque eu já estava lá. E lá eu fiquei, olhando pra vida, que ria de mim, impiedosamente. E chorei um pouco, só pra regar a alma. Depois ri novamente, enganando a mente, fingindo estar contente. 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O lindo portão azul

  Estava perdida, acredita? Ainda estou, mas já não faz diferença. Descobri que a minha vida inteira passei me procurando. (Deus me livre de me encontrar.) Notei as minhas pernas indo por um caminho que eu não conhecia mas, ao mesmo tempo, parecia ser familiar. E fui, confiando, sem saber aonde ia dar, sabendo que queria chegar. A pressa não existia, o tempo nos deu um tempo pra respirar melhor e sentir cada gesto, por mais simples que fosse. Porque era lindo ali, meu Deus, como era lindo! E os meus olhos há muito tempo não tinham visto coisa tão singular. O cheiro de cada móvel foi se alastrando pelos meus pulmões e a cor de cada quadro da parede fez meu coração bater mais forte. Fui observando cada centímetro daquele espaço único, como se eu vivesse ali há anos, como se tudo fosse apenas os meus sonhos se realizando, como se eu sempre fizesse parte daquele contexto. Cada cantinho parecia ser feito de um pó mágico, provavelmente o mesmo usado em castelos de príncipes e princesas. A cada segundo que se passava eu me convencia ainda mais de que a vida pode ser doce. As árvores do lado de fora traziam vida, para mim, que da vida pouco entendia, que não queria entender, que queria se esconder. E fugindo cheguei aonde eu queria, sem saber que podia, sem saber que existia. Enfim doce. Para uma alma quase amarga.

terça-feira, 22 de maio de 2012

INDIGNADA

  Nem sabia como começar a escrever, porque sinto ódio e com isso as palavras sairão muito pesadas. Sinto o lápis tremer na minha mão e a minha caligrafia sair assustadoramente ilegível. Hesitei um pouco ao falar sobre esse acontecimento, porque é um assunto delicado. O fato é que: hoje eu estava na fila da cantina, esperando pacientemente a minha vez, quando, de repente, uma menina furou a fila e queria ser atendida na minha frente. Poderia até deixar ela passar, se por acaso ela estivesse grávida, com um bebê no colo ou tivesse mais de 70 anos, mas ela não se encaixava em nenhuma dessas especialidades. Então fiz o favor de avisá-la que a fila era atrás de mim. Para o meu não espanto, ela respondeu: "Eu sei." Eu pedi que ela se retirasse e fosse para fila, assim como pessoas normais e de um mínimo de educação fazem, mas ela me deixou falando sozinha e comprou o lanche primeiro do que eu. Me faltaram palavras, porque indignação era pouco para o que eu estava sentindo. O meu espanto com o ser humano só faz aumentar. As pessoas acham CORRETO furar fila, jogar lixo no chão, deixar a torneira ligada enquanto passam sabonete e ainda se revoltam quando são chamadas atenção. Será que ninguém lembra dos milhões de cartazes que fazíamos no Jardim de Infância? Aonde foram parar todas aquelas plaquinhas com: "RESPEITE O PRÓXIMO"? No Ensino Médio, ao invés de ensinarem as Leis da Física, poderiam fazer uma revisão das Leis de Boa Convivência, o pior é que o número de gente reprovada ia ser ainda maior.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Esclarecimentos (des)necessários

  Ao contrário do que pode parecer, não sou preguiçosa, nem irresponsável, muito menos vagabunda. Apenas não vejo problema algum em trocar uma lista de física e várias atividades de matemática por um dia inteiro, deitada, lendo um bom livro. Sou apenas uma apreciadora da felicidade, sou apenas uma humana lutando por liberdade. Já deitada e com o livro na mão, olhei, sem apetite algum para as 30 questões, insuportavelmente repetitivas. Estava revoltada, pois me lembrei da última vez que deixei uma atividade, desse mesmo tipo, de escanteio e fui me dedicar à um livro de Clarice. (Recordo-me até hoje os sermões que a minha própria mente me deu.) Droga! Jurei que nunca mais faria isso e que tentaria educar minhas vontades, mas me lembrei de tudo que me privo e fiquei dividida. Poderia passar a tarde toda nesse dilema, tentando encontrar uma solução, mas o meu livro estava mais interessante. Foi puro instinto, acredite.

domingo, 20 de maio de 2012

Achei um tesouro!

(Foto por: Mariana Barreto)
   Ganhei uma caneta nova e meus olhos começaram a brilhar, como se tivessem encontrado um tesouro de dez mil anos. Minhas mãos acolheram o objeto, como se tocassem na coroa da rainha do Egito. Minha mente sorriu, deixando bem claro o quanto estava feliz. A caneta é de um azul clássico, como o céu, o que dá ainda mais vontade de escrever, como se, ao ver essa cor eu estivesse voando. Após analisá-la guardei-a no lugar mais precioso da minha bolsa: o estojo. Ia deixá-la guardada, para sua tinta não acabar, mas me lembrei que as duas últimas canetas que eu fiz isso a tinta secou. É aquela velha história: ficamos com medo do fim e não aproveitamos o início e o meio. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Doendo e aprendendo

  Em instantes você percebe que não é nada, que o planeta é realmente gigante e, dentro dele, você é menor que um átomo minúsculo que compõe seu corpo. Você descobre que tomar soro na veia é tão agoniante quanto arrancar os quatro dentes cisos em um mesmo dia e que sem o número da sua identidade você é menos nada ainda. Você descobre que pior do que a dor de uma injeção, só a dor da saudade e pensa em como seria ótimo se existisse antibióticos para sentimentos, porque uma parada cardíaca pode não ser a pior dor sentida por um coração. Agora estou sentada, estudando, e acabo de notar que às vezes, doente em um hospital, você aprende mais do que em uma aula de biologia.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Indisfarçável

  Acordei, não muito disposta a viver um daqueles dias de sempre. Me olhei no espelho e vi escrito na minha testa "rotina". Peguei a primeira blusa da farda que vi na gaveta e também não demorei para escolher o resto da roupa. Ao abrir a janela notei que o dia não estava nem frio nem quente, o que só diminuiu minha vontade de viver esse dia morno. Fui para o colégio, sabendo que ia ter que conviver com uma saudade cruel. Parada, olhando para o quadro recheado de questões resolvidas da lista de física, comecei a sentir um estranhamento interno. Minha mão tremia ao escrever, então parei e fiquei ouvindo minha alma reclamar. "Saudade né?"- me perguntei, já sabendo a resposta. Como sou fraca, estava quase derrotada pela sua ausência. A saudade se alastrou por todo o meu ser e eu senti todos os meus órgãos se contorcendo. Me contorci também, com raiva de todos os relógios do mundo, que pareciam estar me provocando, impedindo que as horas passassem. Saudade é um sentimento cruel demais. A manhã foi passando em câmera lenta e eu não queria nem imaginar como seria minha tarde. Já sem esperança, olhei meu celular, pra ver se tinha passado pelo menos um segundo da penúltima aula. Surpresa! Parece que o destino leu meus pensamentos. Olhei para o visor do celular, ainda sem acreditar no que via. Ao ler cada palavra sua, a temperatura do meu corpo foi se normalizando, meus olhos, tão irritados e vermelhos, começaram a brilhar e eu consegui voltar a respirar. Então você veio e, ao te ver, meu coração sorriu aliviado. A sua doce presença fez todos os meus músculos relaxarem. Eu sorria sem parar, ao sentir o tamanho encanto presente naquele momento. E sorri o dia todo, sem fazer esforço algum para disfarçar minha felicidade.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Um bilhete

  Não quero escrever à toa, como quem cospe um monte de palavras, nem pra agradar ninguém, porque não preciso disso. Não aceito que as minhas palavras sejam usadas inutilmente, desejo que elas sejam como uma espada, que perfure todas as barreiras criadas pra chegar até sua alma. Eu quero fazer um rebuliço e que, ao me ler, você sinta os seus neorônios se choacolharem. Quero passear por cada avenida do seu cérebro e quero que você mergulhe, junto comigo, nos meus desabafos.

terça-feira, 1 de maio de 2012

O que você vê quando não pode ver?

  Senti um vento gélido soprar contra a minha face, imaginei que alguém tivesse aberto a porta. Abriu mesmo, pois ouvi o barulho que a minha casa faz. Dei o primeiro passo pra frente, embora não soubesse aonde a frente estava. Acertei a direção, ao notar que um cheiro quente de feijão verde invadiu minhas sensações. Nunca tinha sentido um cheiro tão bom e forte como esse. Fui seguindo o aroma até lembrar que a mesa da sala ficava por ali e eu podia me esbarrar a qualquer momento. Então parei e deixei o vento balançar o meu cabelo, fazendo suavemente cócegas nas minhas bochechas. Me lembrei que nunca tinha ficado em pé, parada e apreciando o vento. Sempre chego em casa com pressa, entro correndo para deixar minhas coisas no quarto e vou almoçar. Dessa vez nem sabia aonde meu quarto estava. Andei mais um pouco, seguindo meu instinto, até ter a sensação de estar perto de algo. Fui tateando, até perceber que era a peça da sala. Minhas lembranças fizeram-me seguir reto. Deslizei minha mão sobre a superfície do móvel, sem me importar com alguns objetos que foram caindo com o meu toque. Entrei em outro ambiente. Pelo silêncio, era meu quarto. Procurei algo para me apoiar, mas não encontrei nada, decidindo tirar o tênis ali mesmo. Abaixei-me, tocando no chão frio, com a ponta dos dedos, desamarrei o primeiro cadarço, tirei o tênis, a meia e coloquei o pé no chão. Fiz o mesmo com o outro pé e permaneci aonde estava. Meu quarto, que antes eu achava tão pequeno, virou um universo e eu me perdi. Me perdi por não perceber que estava perdida. Voltei, trilhando o mesmo caminho. Consegui chegar no meu lugar da mesa. Sentei na cadeira, percebendo o quanto ela era macia, nunca tinha notado o tamanho do conforto que ela é capaz de proporcionar. Peguei meu prato redondo e raso. O cheiro da comida ficou ainda mais forte. Minha mãe me entregou a colher e colocou minha mão na direção de uma das panelas. Pela consistência, era o cheiroso feijão verde. Coloquei um pouco no prato. A outra panela provavelmente era de arroz. Cheirei. O leve aroma de alho e cebola me fizeram ter certeza. Ainda com a colher  cheia de arroz, fiquei tentando lembrar em que lado do prato tinha colocado o feijão e o espaço que ele tinha tomado. Não adiantou nada eu passar esses anos estudando coordenadas geográficas, o Norte, Sul, Leste e Oesta desapareceram, nenhuma bússola iria me salvar nesse momento. Joguei o arroz em qualquer lugar do prato e tentei misturar com o feijão. Peguei um pedaço de peixe e coloquei no prato também, sem ter noção alguma de como estava aquela bagunça. A primeira garfada veio vazia, só consegui sentir o gosto do garfo, que não tinha gosto algum. Tentei novamente, consegui dar uma garfada um pouco mais cheia. O feijão estava no ponto certo, macio, bem temperado e o arroz estava crocante, com pedacinhos quase imperceptíveis de alho. Acabei o almoço, um pouco irritada com a minha falta de jeito com os outros quatro sentidos. Levantei, topei o dedo mindinho no pé da mesa e fui deitar na minha cama macia. Fiquei pensando em quantas coisas fogem da nossa vista e a gente acaba não vendo de verdade, em como nossa visão é limitada e nos limita. O som do despertador cortou meus pensamentos ao meio, mas como não estava vendo nada, deixei o despertador tocando, até virar uma musiquinha de ninar. Quando levantei, ao invés de ir correndo estudar, fiquei parada, deixando o vento balançar o meu cabelo silenciosamente, fazendo cócegas nas minhas bochechas. Abri os olhos e sorri.


(Para Bruna Nogueira, que engravidou dessa ideia e eu fiz o parto.)

sábado, 28 de abril de 2012

O vento soprou forte

  E eu, que sempre cobrei que as pessoas falassem o que sentem, não consigo falar nada. Ainda que eu fale alguma coisa, nada direi, embora muito sinta, embora nada queira sentir. Do nada ao tudo, do tudo ao nada. Viva a coragem que as pessoas têm de sumir. Viva o encanto que se desmancha rapidamente como uma nuvem de fumaça, e o fogo que se apaga com um suave balde de água fria. A fogueira de São João nem durou até junho. E com essa saudade, nem eu vou durar.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Uma mente em branco

  Hoje não quero falar nada, por total respeito à todas as mentes que, assim como a minha, recebem um bombardeio de informações durante 24 horas por dia. Hoje decidi ficar calada, porque o mundo estava me deixando surda, a ponto de não conseguir ouvir minhas próprias ideias. É que o silêncio, às vezes, é um alívio. E já que não posso calar o mundo, me calei. Desejo um dia de puro silêncio pra você.

Deixa eu falar

Não me levem a mal,

Só quero ser feliz.

Nesse mundo marginal,

Não mando nem no meu nariz.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Voltei, é rápido.

  Por alguns dias pensei que não ia mais ver minha mão deslizar pelo papel, fazendo as dores saírem de mim. Estava longe, fugindo, entendem? Estava com medo. Esse tempo que sumi passei observando o comportamento humano, (inclusive o meu, embora eu não me sinta participante dessa espécie)e comecei a desacreditar na arte de escrever, como se o mundo não merecesse essa dádiva. Me subiu uma raiva, ocupando todas as extremidades do meu corpo, por conta da forma que as pessoas recebem as palavras. O planeta agora é numérico. Fico revoltada  pela reação que as pessoas têm (inclusive eu) ao ver alguém muito bom em física e matemática, ou alguma outra matéria que exija cálculos. Ano passado não deu tempo de me parabenizarem pelo 10 que eu tirei em redação, porque a nota, mediana, de física vinha logo embaixo e eu era rapidamente punida. "Como você vai sobreviver se não é boa em matemática?", era o que me perguntavam. E, se o mundo continuar indo por esse caminho, realmente não sei qual será minha saída. Mas acabei de sentir o cheiro da ponta da grafite, ao entrar em contato com o papel, que tem um cheiro tão convidativo quanto um bolo ao sair do forno, e lembrei-me de como irei sobreviver.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Um

(Foto por: Mariana Barreto)
  
  Não quero! Ao menos que venha logo. Não tenho mais disposição alguma pra esperar. Perdi a paciência com sentimentos que demoram. Adeus fraqueza! Estou com preguiça de sentir qualquer tipo de sensação que desequilibre a minha mente. Por isso a desistência, entende? Por isso a rebeldia, o descabelamento. Pura covardia. Nós não sabemos sofrer, não sabemos lidar com esse mar furioso de desentendimentos. Recusamos a oportunidade que o destino nos deu de ser feliz. Desperdiçamos a sorte que tínhamos de poder ser uma só pessoa. Éramos um. E um, pra mim, sempre foi muito pouco. Um está mais perto de zero do quê de dez. Viramos a inexistência, nos tornamos vazios. Eu sem você, você sem mim, a gente sem nós. Virou um nó, o que era um laço.

Felicidade foi embora

(Foto por: Mariana Barreto)
  
  Você nem esperou! Saiu logo voando ao sentir minha aproximação. Foi de propósito? Juro que não queria te machucar. Te assustei sem querer ao querer te ver. Era só para ouvir um pouco mais do seu doce canto. Essa noite não foi boa e quase perdi meu encanto. Encanto esse que eu não faço ideia alguma se realmente me pertence. Quem é encantado deve guardar sua magia para si ou distribuir por ai? Eu queria tanto um pouco mais do seu som, pra despertar meu coração, que já cansou de ouvir 'não' e, ao te ouvir cantar, disse 'sim' à vida. Pra onde você vai, voando tão depressa? Está perdido? Me sinto exatamente assim, meu caro: com uma pressa infinita de encontrar um lugar só pra mim. Me leva com você! Quero sossego! Felicidade tornou-se pouco para mim. Quero muito mais. E já não me importa a eternidade. Me eternizei em mim.

(Para o passarinho que cantou hoje na minha janela e me proporcionou cinco segundos de extrema alegria)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Dá licença!

(Foto por: Mariana Barreto)
  
  Não faço questão alguma de ser vista por você, que passa por mim com uma pressa sem fim. Que anda mais rápido, apressa o passo, para não tombar-se com o meu desprezo. Saiba que nem te noto. Mal tenho tempo para olhar as horas no relógio, quem dirá olhar para os seus olhos. Seria perigoso, pois sempre me perco no vazio do seu vago olhar. Será que tem alguma vaga para estacionar em sua rua? Que é sem saída e me deixa perdida, sem a menor pretensão de me encontrar. E eu, que achava que ia te acompanhar, fiquei de longe, vendo você se afastar.

terça-feira, 27 de março de 2012

Haia

  Volta! Vem cá, me faz um cafuné. Aqui está complicado ser entendida. Eu queria tanto te ter um dia ao meu lado, pra pelo menos saber o tom da sua voz, saber o cheiro do seu cabelo, pra dar risada do seu estranho jeito de falar. Para, nem que fosse só por um momento, saber que pertenço à alguém, saber que tenho um lugar onde me encaixo perfeitamente. Vem um dia me visitar, me ouvir um pouco, ler uma de suas histórias pra mim. Preciso tanto da sua companhia, da sua compreensão. Por que não esperou mais um pouco? Eu não ia demorar. Nem ao menos me mandou uma carta, nem esperou dizer que te amo. É que eu te amo diferente. Sei que todo mundo fala isso, mas é completamente diferente. Acredite. Sei que acreditas em mim. Perdoe as minhas lágrimas ao ouvir falar seu nome, ao sentir a presença da sua essência espalhada pelo meu quarto. Perdoe meu singelo atraso, mas é clássico noiva se atrasar, não? Atrasei-me e te perdi de vista, cheguei na época errada. Por que, meu Deus? Por que esse desastroso desencontro? É tão visível a nossa estranha sintonia, a sinfonia do meu coração transformando em lei cada palavra sua. Será que é loucura? E se for, deixa ser! Sou tão louca quanto você. Na medida certa pra te acompanhar, pra te completar. Ignore a minha estranha intimidade, é que já te conheço bem, embora você nem saiba quem sou eu.

Um ciclo sem fim

  Eu prometi à mim mesma que não ia voltar. Eu me jurei saber o perigo que estava correndo. Maldito coração. Maldito erro, malditos erros. Maldito cheiro, maldito toque, maldito esse ridículo romantismo que corre em minha veia. Eu achava que estava bem, que estava curada dessa alienação utópica, mas o buraco é mais embaixo. Está tudo lá embaixo, tudo no chão, caído. Pra onde é que eu vou, se o meu abrigo desmoronou? Ainda tem aquele brilhante ditado "cair 7 e levantar 8." Até aí está tudo certo, o problema é quando essas quedas começam a ter um número inesgotável. A nossa esperança se esgota e tudo passa a ser a gota d'água.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Terra dos mortos

  O que mais me revolta é o silêncio de todos vocês. É a cara amarrada, a boca amordaçada. Nenhuma pessoa se salva desse nojento modo de viver. O que mais me impressiona é esse jeito burro de se achar inteligente.  Surpreendo-me a cada dia com a nossa capacidade de engolir o mundo como se fosse uma massa grudenta, que desce arranhando e tapando a nossa garganta. Por favor, alguém grita comigo! Alguém diz que também não vê sentido algum em viver assim, sem amor, sem querer, sem fazer. Tudo pela metade, com maldade. Ninguém faz o que quer, nem o que gosta. Que bosta! Assim o mundo não anda, sai dessa lama, cambada de gente imunda. Não toquem em mim, terráqueos auto-destrutivos. Mantenha distância, humanidade morta.

domingo, 25 de março de 2012

Receita errada

  Deveria ser proibido alguém ser machucado assim, como um bolo esquecido no forno, como um bolo solado por falta de amor. Largado no meio da chuva, sem abrigo, um perigo. A casa vazia, televisão desligada, cama arrumada, pratos limpos, ninguém mais usa, ninguém se suja. Ninguém se cuida. Cuidado! Sem agrado, coração quebrado, moído, partido. Sem sentido algum, um vazio comum. Se amam, se chamam, clamam. "Me chama, me ama!" Silêncio. Frio total, um deserto, sem ninguém por perto. Ninguém disposto, cada um com seu gosto. Torto. Dois sozinhos, virados. Gelados. Tudo errado.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Livre

 E você me olha com um brilho tão intenso, com um olhar inocentemente cuidadoso. Você me toca com as mãos de saudade. Nós sentimos falta da nossa presença, que, naquela época, nem sabíamos que existia. Você não sabe que eu sei, muito menos eu. Fecho meus olhos diante da realidade e me permito gostar de ter você por perto, me permito me jogar e voar livre. Liberdade. Penso livremente em você, sentindo estar presente no seu pensamento também. Somos nosso, sem poder pertencer um ao outro.

terça-feira, 6 de março de 2012

Pode ser

Se for você mesmo, já era. Já era porque não faz sentido algum e eu tenho um certo deslumbre por coisas desse tipo. Você me deixa como um pássaro no meio do horizonte. E, embora estivéssemos no meio de uma chuva de problemas, eu consegui voar leve. Voei tanto que nem dei lugar pra o sol, fortemente amarelo, nos atrapalhar. Mas tudo estava atrapalhadamente errado. Não pode ser assim, você sabe! Mas como eu queria que você quisesse que assim fosse. E seria! Seria bom demais, seria melhor que morder pedacinhos de nuvem. Pode ser que nada disso seja e a gente torne a ser.  Tomara que você vire e veja que eu vejo também. Vimos na mesma hora o que não podíamos sentir. Falamos com cuidado, sem poder nos entregar. Todo cuidado é pouco. Todo contato é pouco.

domingo, 4 de março de 2012

Fui alí

  Mas idaí? Ninguém sabe o que se passa aqui dentro, ninguém sabe a mala cheia de dores que cada um carrega nas costas, ninguém sabe o quanto nosso coração parece murchar a cada segundo por conta de coisas desumanas! É que a gente está tão focado nas nossas próprias dores que acabamos não nos importando com o que a pessoa ao nosso lado está sentindo, porque, ao nosso ver, só a gente se machuca. Assim a vida segue, ninguém vê que a moça que está no meio da rua, com uma criancinha no colo, passou dias sem comer e está morrendo de fome, porque a gente saiu de casa 7 horas da manhã e já não aguentamos mais ouvir o nosso estômago pedir comida, sendo que ainda são 8 horas. E quem se importa que aquele garoto fica o dia inteiro debaixo do sol, fazendo malabares à troco de algumas moedas, ou alguma atenção, se a minha bolsa nova já está precisando se aposentar, dando lugar pra uma ainda mais nova? E, por incrível que pareça, dar algumas moedas é mais simples que dar atenção. Ninguém mais tem tempo pra se olhar no espelho, quem dirá olhar nos olhos do outro.  Hoje está difícil até da gente se olhar e quando, por acaso, dá tempo de dar aquela checada no nosso estado, já é tarde demais. É nessa hora que conseguimos enxergar cada ferida que faz nossa alma gritar por socorro. Nossos ouvidos estão tapados pelo barulho alheio das almas que, assim como a nossa, pedem socorro também. "Queremos sair desse mundo." Hoje não temos mais freio. Não sei se é bom ou ruim, mas não paramos mais e às vezes esquecemos que falhamos também, que precisamos de colo. Mas quem tem tempo pra falhar? Nada pára. Tudo muda, tudo gira, tudo passa. Todos erram.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O que é isso?

(Foto por: Mariana Barreto)

  Acredito muito que a nossa felicidade é construída segundo a nossa vontade. Acredito muito no poder que a gente tem de escolher ser feliz. Me pergunto se nós, a mais nova geração desse planeta de tamanha alienação, sabemos o que é isso. Mal sabemos o que é escolher, quem dirá o que é felicidade. Não estou dizendo aqui que somos infelizes, de jeito nenhum. Ou talvez eu esteja. Dane-se. Todos nós sabemos que não corremos atrás da nossa felicidade. Todo nós sabemos que a gente desiste na primeira esquina dobrada errada, na primeira lombada, na primeira topada. Cansamos rápido, queremos rápido, passa rápido. Maldita sociedade conformada! Somos a geração da poltrona. Ficamos sentados, vendo televisão e deixando nossa mente empoeirada. Não precisamos mais pensar, já reparou nisso? Nos entregam tudo mastigado. Digerimos lixo. E o que se pode esperar de nós? Somos a tentativa de acertar os erros dos nossos pais. Às vezes tenho certa inveja das gerações passadas, que lutaram até o fim pelos seus direitos. A gente luta pelo quê? A gente defende o quê? "Ideologia? O que é isso? Novo aplicativo? Marca nova de celular?". "Amor? Isso existe?". Será que ainda temos coragem de amar? Ou ao menos sabemos o que é isso? Trazemos na veia o medo se apaixonar, aprendemos desde pequenos que isso é uma roubada, sabemos de cor e salteado que amar dá problema. E nem pelo tal do amor a gente luta mais. Nascemos sem armaduras, nascemos sensíveis, já nascemos feridos, destruídos. Me indigno com a falta de forças que nós temos pra receber mais um arranhãozinho. Seria necessário saírmos por aí, abrindo as cabeças de todo mundo e avisar: "Corram atrás dos seus sonhos!". Correr... Sonhos... O que é isso?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Não tenho tempo (Desabafo - Parte II)

(Foto por: Mariana Barreto)
  


  A Apple bem que podia inventar um novo aplicativo para coçar as costas, do jeito que ando não tenho tempo pra isso. Não deu tempo nem de olhar direito o nascer do sol, que estava lindo, nem pro passarinho que estava cantando na minha janela. Já eram 6:35h da manhã, eu pego carona às 6:40h, tenho 5 minutos para correr do elevador até o prédio de minha amiga. Pegamos um engarrafamento de mais ou menos 10 minutos, temos mais 5 minutos para sair do carro, correr pelo portão, passar pela portaria e voar até a sala, pra chegar antes do professor, temos uns 2 minutos pra escolher o melhor lugar na sala, cumprimentar todo mundo, e quando nos damos conta já deu 7h e a aula vai começar. Passamos a manhã inteira correndo, copiando rápido o assunto que está no quadro, anotando rápido na agenda os deveres para a próxima semana, resolvemos rápido as questões de física, não lemos o enorme texto de sociologia, nem deu tempo do professor de literatura citar mais exemplos da terceira geração do Romantismo. Pra falar a verdade não deu tempo de lanchar, tive que enfiar todos os biscoitos de vez na boca, pra depois correr no banheiro e no bebedouro... ainda cheguei atrasada na penúltima aula. Aliás, nem ví que o tempo passou tão rápido, nem ví que já estava naquele colégio há mais de 4 horas. Nem deu tempo de olhar no relógio. Nem deu tempo de avisar pra todo mundo que, do fundo do meu coração, eu não queria estar alí, que eu realmente preferia estar por aí, vivendo, fazendo coisas mais importantes que saber que o trabalho de uma força peso é o valor da massa vezes o valor da gravidade, vezes a altura. Esquecí de dizer pro professor que eu nunca calculo o módulo do trabalho do meu peso quando subo as escadas do meu prédio. Será que ele tem tempo de ficar calculando a força do trabalho que o motor do carro dele faz? Será que eu sou a única pessoa que conseguiu sobreviver 16 anos sem saber que as células cartilaginosas são binucleadas? Será que quando eu estiver entrando num ônibus o cobrador vai perguntar: "Thomas Hobbes era teórico absolutista ou liberalista?". Ou será que quando eu pedir um suco numa lanchonete a garçonete vai me perguntar qual a quantidade de mol de H2O que eu quero? Imagine se uma mulher grávida estivesse chegando no hospital pra ter filho e o médico dissesse: "Olha, só poderei fazer o seu parto depois que você responder essa pergunta básica: Qual a diferença entre os pequenos e grandes lábios?". Será que o mundo tem tempo pra tanta informação, será que conseguiremos acompanhar essa rapidez, essa velocidade desastrosa? Será que ainda temos tempo pras coisas simples? Ainda dá tempo de cantar no chuveiro? Mal temos tempo para nós mesmos, que acabamos não vendo o que acontece ao nosso redor, não dá pra viver os momentos, não dá pra viver os lugares. Tudo passa voando, mas cortaram nossas asas.